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Ciclo Cinema Yasujiro Ozu

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MU, ou a oriente-acção do Vazio
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MU, ou a oriente-acção do Vazio

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No seguimento do ciclo de cinema, organizado o ano passado, sobre Buster Keaton, os alunos de Programação Cinematográfica do ano de 2002/2003 decidiram dar continuidade a esse esforço de agenciamento e pensamento que é saber ou tentar programar um ciclo de cinema, possível apenas com a orientação do Professor Doutor João Mário Grilo e o apoio da FCSH. O cineasta estudado agora foi Yasujiro Ozu, mais complexo, de subtilezas mais invisíveis e menos óbvias, nos antípodas geográficos e formais do cineasta americano, explorado no ciclo anterior. A tarefa de estudo adiantou-se difícil, a de programar mais delicada. Como tratar o cineasta, considerado por muitos como o mais japonês dos cineastas, por outros como o cineasta japonês mais ocidental?

O agenciamento de filmes poderia seguir vias várias : tomar o exotismo nipónico como plataforma de lançamento seria um caminho óbvio, demasiado óbvio. Muitos dos ensaios partem de questões temáticas centrais, repetidas, ou reformuladas, nos filmes, nos remakes, nos títulos semelhantes da obra de Ozu : a dissolução da família japonesa, a incidência do tigre de papel ocidental no pós-guerra, a coca-colarização e o interstício amargurado de ser o japonês dos 50s, algures entre um passado muito presente, e um futuro demasiado próximo, demasiado novo, demasiado estrangeiro, mas sempre contíguo, nunca frontal. A frontalidade permanece sempre insular, nipónica, suspensa, como é o ensinamento perene da arquitectura tradicional japonesa. Assim são os planos frontais de Ozu, os sorrisos modestos cristalizados no actor repetido, de mãos cruzadas, à escala dos tatami. Todos os textos conduzem a um outro lugar, para além da temática, extra-humanos, em direcção à virtualidade cinemática pura: a  experiência formal inaugurada por Ozu. A lição que a pós-modernidade ocidental tira do sentido do meio, do interstício, do não-ser, da cristalização da morte na Fotografia de Barthes, da consciência da essência não mais que cinemática do homem (nada mais que temporal, nascido num fotograma que morre logo para dar lugar a outro), é entrevista por Ozu no acto espontâneo de fazer filmes. Assim é o ideograma Mu, símbolo do Nada, do Vazio, do Vácuo, signo apotropaico de protecção doméstica no Japão, testemunho tumular ( o exemplo é a lápide do próprio Ozu), frontispício também do catálogo.  Os alunos formularam esta sensibilidade em termos como estilo, concepção, visualidade, forma, numa análise que toca simultaneamente os ramos transversais da árvore filmográfica do autor. Desde a discussão sobre a presença repetida de actores em personagens-tipo, à presença do feminino nipónico, passando pela permanência da tradição do país, à particularidade da câmara olho-de-cão, à atmosfera de impermanência, de morte e matrimónio, à sensação final de luto permanente.

  Em direcção à grande lição de forma e atmosfera, procurámos uma programação que demonstrasse a influência de Ozu, ou a simultaneidade de sensibilidade, no cinema posterior, principalmente ocidental. Escolhemos obras de Jim Jarmuch, Jean-Marie Straub, John Ford, Nabuhiro Suwa, e de Pedro Costa, a quem agradecemos também as sugestões e a orientação que nos deu para a programação deste ciclo. A perspectiva foge à associação do exótico, o alcance é outro, talvez mais ambicioso, mas certamente dará que pensar. Resta ver os filmes, e ler os textos.

Joana Lima Martins