Make your own free website on Tripod.com
Ciclo Cinema Yasujiro Ozu

Home

Programação
MU, ou a oriente-acção do Vazio
Catálogo
Biografia
Filmografia
Entrevistas
Citações
Imagens
Sons
Comentários
Ligações
2. ERVAS FLUTUANTES (Ukigusa) Malaika Nogueira Cipriano
 

Ficha Técnica: Realização: Yasujiro Ozu / Argumento: Kogo Noda, Yasujiro Ozu / Fotografia: Kazuo Miyagawa / Direcção artística: Tomoo Shimogawara / Música: Kojun Saito / Produção: Daiei / Cópia: Alive Films (Paris), em 35mm, colorida, versão original legendada em francês / Interpretação: Ganjiro Nakamura Komajuro Arashi; Machiko Hyio Sumiko; Ayako Wakao Kayo;

Hiroshi Kawaguchi Kiyoshi Honma; Haruko Sugimura Oyoshi; Hitomi Nozoe Aiko; Chishu Ryu o proprietário do teatro; Hiroshi Mitsui Kichinosuke; Haruo Tanaka Yataso; Yosuke Irie Sugiyama; Hiraku Hoshi Kimura; Mantaro Ushio Sentaro; Kumeko Urabe Sigue

 

Em 1934 Ozu fizera uma primeira versão silenciosa do argumento, intitulada Uma história de ervas flutuantes (Ukigusa Monogotari) que se tornou um dos seus filmes preferidos. Assim sendo, o filme Ervas Flutuantes de 1959 é um remake que, no entanto, não perde em interesse ou habilidade. Aliás, com tudo o que aprendeu e melhorou nesses 25 anos, Ozu enriqueceu o filme transformando-o numa obra-prima que, apesar da alteração geográfica e de alguns pormenores anedóticos, se mantém muito próxima do argumento original.

 

Uma companhia de teatro ambulante chega a uma pequena cidade portuária na península de Shima. Do grupo fazem parte o director Komajuro, a estrela Sumiko, a actriz infantil Kayo, entre outros. Komajuro mantém um relacionamento amoroso com Sumiko; no entanto, na cidade onde agora estão, vive Oyoshi, uma mulher com quem tem um filho, Kiyoshi.

Enganando os colegas, Komajuro escapa do teatro e vai visitar Oyoshi ao seu pequeno restaurante, pela primeira vez, ao fim de 20 anos. Kiyoshi, agora um belo rapaz, trabalha no posto de correios local. Apesar de ficar feliz por encontrar o filho bem encaminhado, o facto de não lhe poder revelar a sua paternidade, entristece-o.

A estreia do espectáculo é um sucesso. Em seguida, Komajuro leva Kiyoshi para pescar e jogar xadrez. Sumiko, intrigada com a ausência do companheiro, acaba por descobrir o seu segredo. Com o orgulho ferido e desejo de vingança, Sumiko persuade a jovem Kayo a seduzir Kiyoshi para depois o deixar.

O público do teatro começa a diminuir. Perante as circunstâncias, Komajuro decide-se pela separação do grupo e planeia fixar-se na cidade com Oyoshi e Kiyoshi. No entanto, os seus sonhos são frustrados quando Oyoshi o informa que Kiyoshi saiu de casa com Kayo, levando todas as suas economias.

No dia seguinte Kioshi volta para casa, trazendo Kayo, com intenções de casar com ela. A partir desse momento criam-se uma série de conflitos, que finalmente revelam a situação pai/filho. Komajuro, abatido parte. Na estação de comboios encontra Sumiko, desamparada e deprimida. Naquele momento percebe que ela é mais uma erva flutuante que, como ele, está destinada a deambular Assim, partem juntos.

 

Perante este argumento aparentemente telenovelesco é impressionante o modo cuidado e meticuloso com que Ozu o trabalha. A cena inicial, por exemplo, constitui um dos momentos verdadeiramente mágicos do cinema de Ozu. O encadeamento de várias imagens estáticas com os objectos que tão frequentemente servem de abertura para as sequências do cineasta, inicia-se com um plano que mostra um farol ao fundo e uma garrafa apoiada no chão em grande plano. Duas formas parecidas que criam uma composição perfeita, simétrica, de um lirismo enorme, reforçado pela música de Takayori Saito e pelas cores suaves. Os planos seguintes vão abrindo a perspectiva do lugar fragmentado, com a presença constante do farol e introduzindo os barcos. São imagens que podiam funcionar autonomamente mas que no conjunto resultam perfeitamente. A chegada da companhia de teatro no barco é aproveitada para introduzir o único plano em movimento de toda a sua etapa a cores.

Todo o resto do filme continua a tirar partido da minuciosa mise-en-scène que, provavelmente, terá atingido o limite da perfeição estética de Ozu. Kazuo Miyagawa, o director de fotografia que normalmente trabalha com Kenji Mizoguchi, transmitiu a Ozu numerosos conhecimentos sobre o uso da cor. Só trabalharam juntos uma vez e conseguiram subitamente criar o filme provavelmente mais esteticamente belo de toda a obra de Ozu. O arranjo de cores revela um lado lúdico. Em quase todos os planos encontramos um pequeno detalhe (umas flores, um kimono, um guarda-chuva) vermelho que vem surpreender no meio das cores suaves. Este efeito já tinha sido experimentado em Flores do Equinócio, contudo é em Ervas Flutuantes que o realizador o leva ao extremo. No entanto fá-lo, como já era habitual, sem querer atribuir-lhe algum significado ou contexto, mas apenas uma sensação Ozu raramente se perguntava Qual é o significado disto?.

O uso da câmara baixa e planos fixos é aqui, mais que uma assinatura do realizador. A atmosfera torna-se íntima e acessível. As personagens aparecem bem humanas reflectindo o respeito que Ozu tinha pela dignidade do homem comum. A câmara não divaga mas foca o espaço.

A admirável criatividade de mise-en-scène continua com a utilização de linhas verticais e enquadramentos dentro de enquadramentos (bastante evidentes por exemplo, na cena da discussão à chuva). Por diversas vezes, diferentes fundos confundem-se convertendo a profundidade de campo num sugestivo labirinto que toma distintos aspectos consoante o movimento dos personagens que o habitam.

A concepção sonora também revela um meticuloso cuidado, fazendo como que uma ponte de ligação entre as cenas. No seu todo, Ervas Flutuantes mostra a paixão de Ozu pela composição em todo o seu esplendor.

 

No que diz respeito ao elenco encontramos algumas mudanças em relação a Uma História de Ervas Flutuantes. Assim, existem alguns actores que não fazem parte da família Ozu. Em especial uma das grandes actrizes daquela década, Machiko Kyo (Sumiko), famosa entre os espectadores ocidentais por ter participado numa série de obras primas amplamente divulgadas e premiadas pelo mundo fora: Rashmon de Kurosawa, diversos filmes de Mizoguchi e até uma breve incursão no cinema americano ao lado de Marlon Brando em The Teahouse of the August Moon/ A Casa de Chá ao Luar de Agosto, de Daniel Mann (1956).

 

A abordagem deste argumento é feita de maneira muito dramática e com uma enorme preponderância das personagens femininas. Estes aspectos foram uma surpresa no cinema do realizador.

A personagem de Sumiko, por exemplo, adquire uma forte carga afectiva no momento em que se enfrenta com o amante depois de descobrir o seu segredo. Nesta cena, o aspecto melodramático do momento é realçado magnificamente. Cada uma das personagens encontra-se em lados opostos da rua, debaixo de uns toldos, fisicamente separados pela chuva (elemento raro no cinema de Ozu, sempre cheio de céus azuis e limpos) e animicamente incapazes de recuperar a união de outrora. Nesta cena de forte intensidade emocional a chuva vem reforçar a tensão sentida entre os dois personagens e aumentar a intensidade dramática.

De resto, temos também elementos como a família sagrada, a paternidade oculta ou os enganos e fracassos sentimentais que conferem muito dramatismo ao filme. Ainda assim, Ozu conserva em todos estes momentos a ternura, o humor suave e o sentimento positivo, tão característico da sua obra.

 

Em jeito de curiosidade, a presença de garrafas em diversos planos poderá ter uma justificação menos lírica Ozu não só bebia bastante como defendia uma forte ligação entre o álcool e a criatividade. Chegou até a declarar:

Se o número de copos que bebes é pequeno, não pode existir obra-prima; a obra-prima emerge do número de copos cheios que consigas tomar. Não é uma coincidência que o filme Ervas Flutuantes seja uma obra-prima, basta olhares para a cozinha e veres o número de garrafas vazias

Sendo ou não esta a razão, é um facto que Ervas Flutuantes se tornou um dos mais emotivos, nostálgicos, esteticamente prazenteiros e formalmente perfeitos filmes da sua trajectória.